O Evangelho de João poderia ter terminado no capítulo 20. Depois de narrar a morte e a ressurreição de Jesus, João explica por que escreveu tudo aquilo: “Jesus realizou muitos outros sinais na presença dos seus discípulos, que não estão registrados neste livro. Estes, porém, estão registrados para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo nele, tenham vida em seu nome” (João 20:30-31).
Parece uma conclusão perfeita. O objetivo do livro foi apresentado, Jesus ressuscitou e a história poderia terminar ali. Mas João continua. Ele acrescenta mais um capítulo e decide terminar seu Evangelho contando novamente uma história envolvendo Pedro. Isso me fez pensar: por que João termina assim? Por que, depois de falar sobre a ressurreição, ele escolhe encerrar seu Evangelho contando o que aconteceu entre Jesus e Pedro?
João é intencional. Ao longo de todo o Evangelho, ele vai apresentando sinais que apontam para uma realidade maior. Os sinais não são o destino; são placas que apontam para o Eterno. João não quer apenas que você veja o sinal. Ele quer que você perceba para quem o sinal está apontando.
E talvez seja exatamente isso que acontece no capítulo 21. João começou seu Evangelho revelando quem Jesus é e termina mostrando o que acontece quando um discípulo encontra Jesus.
E aqui precisamos lembrar quem era Pedro naquele momento.
Pouco antes, Pedro havia declarado sua lealdade a Jesus. Quando Jesus disse que seus discípulos o abandonariam, Pedro afirmou que, ainda que todos abandonassem Jesus, ele nunca o faria. Mas Jesus conhecia Pedro melhor do que Pedro conhecia a si mesmo. Ele respondeu: “Você dará a vida por mim? Em verdade lhe digo que, antes que o galo cante, você me negará três vezes!” (João 13:38).
E foi exatamente o que aconteceu.
Pedro negou Jesus três vezes.
Aquele que havia dito que jamais abandonaria o Mestre acabou dizendo que nem sequer o conhecia.
É nesse contexto que chegamos ao capítulo 21.
“Depois disso, Jesus apareceu novamente a seus discípulos junto ao mar de Tiberíades” (João 21:1).
Jesus aparece novamente.
Essa pequena expressão carrega algo muito bonito. Ele aparece outra vez. Jesus volta ao encontro daqueles discípulos.
E isso revela algo sobre a maneira como Deus se relaciona conosco. Existe uma insistência no amor de Deus que, quando paramos para contemplar, chega a nos constranger. É um esforço que não conseguimos explicar completamente e que, por incrível que pareça, sempre começa nele.
“Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).
Nós não fomos os primeiros a procurar Jesus. Ele nos encontrou primeiro. Ele nos escolheu. Ele nos chamou. Como o próprio Jesus disse: “Vocês não me escolheram; eu os escolhi” (João 15:16).
Pedro tinha falhado, mas Jesus ainda estava indo ao encontro dele.
Quando voltamos para aquilo que conhecemos
Pedro então diz: “Vou pescar”.
E os outros respondem: “Nós também vamos com você”.
Eles entram no barco e passam a noite pescando, mas não pegam nada.
É interessante pensar nesse momento. Pedro volta para aquilo que conhecia. Antes de seguir Jesus, ele era pescador. A pesca fazia parte da sua vida, da sua rotina e daquilo que ele sabia fazer. Talvez, depois de tudo o que tinha acontecido, voltar para o barco parecesse mais simples do que lidar com todas as perguntas que estavam dentro dele.
Pedro poderia estar pensando: “Eu não sei o que vai acontecer agora. Então vou fazer aquilo que eu sei fazer”.
Isso não significa necessariamente que Pedro havia abandonado Jesus. Talvez fosse apenas uma tentativa de voltar ao conhecido, de encontrar algum tipo de segurança naquilo que ele dominava.
E isso acontece conosco também.
Existem pessoas que um dia estiveram profundamente engajadas, mas que, em algum momento, passaram a se ocupar cada vez mais com seus próprios afazeres. Não necessariamente deixaram de amar Jesus. Talvez apenas tenham encontrado uma zona de conforto em fazer aquilo de que gostam e aquilo que sabem fazer.
O problema é que estar ocupado não significa necessariamente estar no lugar certo.
Pedro estava trabalhando, mas estava no barco.
E Jesus estava na praia.
Ao amanhecer, Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram. Ele pergunta se eles tinham alguma coisa para comer. Eles respondem que não. Então Jesus manda que lancem a rede do lado direito do barco.
Eles obedecem e, de repente, a rede se enche de peixes.
É nesse momento que o discípulo a quem Jesus amava percebe quem está na praia e diz a Pedro:
“É o Senhor!”
Pedro, ao ouvir isso, veste sua capa e se lança ao mar.
Essa cena sempre me chama a atenção porque Pedro não reconheceu Jesus sozinho. Foi João quem percebeu primeiro e apontou para ele.
E talvez isso também diga alguma coisa para nós.
Há momentos em que estamos tão cansados, frustrados ou machucados que já não conseguimos perceber Jesus com clareza. A presença dele continua ali, mas nossos olhos estão presos ao que aconteceu conosco.
Por isso, é sempre bom ter um amigo que nos lembre que Jesus está lá na praia.
Um amigo que consiga olhar para aquilo que estamos vivendo e dizer: “É o Senhor!”.
Talvez você já tenha sido esse amigo para alguém. Talvez Deus tenha colocado você ao lado de uma pessoa que não conseguia mais enxergar Jesus e você precisou apontar para Ele.
Mas talvez, neste momento, seja você quem precise de alguém.
Alguém que diga novamente: “Olha para a praia. O Mestre está lá”.
Jesus volta à ferida para trazer cura
Quando Pedro chega à praia, encontra algo que parece apenas um detalhe, mas que João faz questão de registrar:
“Quando chegaram, encontraram um braseiro, no qual havia um peixe, e pão” (João 21:9).
Esse detalhe fica ainda mais interessante quando lembramos de outra cena.
Na noite em que Pedro negou Jesus, ele também estava diante de um braseiro. João registra: “Como fazia frio, os servos da casa e os guardas tinham feito uma fogueira com carvão e se esquentavam ao redor dela. Pedro estava ali com eles, esquentando-se também” (João 18:18).
João usa a mesma palavra grega nas duas situações: anthrakiá, que significa um braseiro ou fogo de carvão.
João é intencional nas escolhas que faz ao contar sua história. E aqui parece querer que o leitor perceba essa conexão: Pedro esteve diante de um braseiro quando negou Jesus e agora está novamente diante de um braseiro quando Jesus vai restaurá-lo.
Existe algo muito humano nessa cena.
Quem nunca sentiu um cheiro e imediatamente se lembrou de alguma coisa do passado? O cheiro de uma comida, de uma casa, de uma fogueira, de um perfume. Às vezes, basta um cheiro para uma lembrança voltar com uma força que não esperávamos.
Nós chamamos isso de memória olfativa.
A Bíblia não diz que Jesus preparou aquele braseiro especificamente para provocar uma memória em Pedro, então não podemos afirmar isso como se fosse o significado explícito do texto. Mas João faz questão de usar novamente a mesma palavra, e a conexão entre as duas cenas é difícil de ignorar.
E é justamente diante desse cenário que Jesus começa a tratar Pedro.
Depois de comerem, Jesus pergunta:
“Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?”
Essa pergunta já carregava muito peso.
Pedro havia dito anteriormente: “Ainda que todos abandonem você, eu nunca o abandonarei” (Mateus 26:33).
Agora Jesus pergunta se ele ainda o ama mais do que os outros.
Pedro responde:
“Sim, Senhor, tu sabes que te amo”.
Jesus pergunta novamente.
Pedro responde novamente.
E Jesus pergunta uma terceira vez.
Dessa vez, Pedro fica triste.
Três perguntas. Três respostas.
Pedro havia negado Jesus três vezes diante de um braseiro. Agora declara seu amor três vezes diante de outro braseiro.
Jesus não ignora a ferida de Pedro. Ele entra naquele lugar e toca justamente naquilo que precisava ser tratado.
Às vezes queremos que Deus nos cure sem precisar tocar em assuntos delicados. Queremos seguir em frente sem olhar para aquilo que nos machucou, sem reconhecer aquilo que fizemos e sem passar novamente por lugares que preferíamos esquecer.
Mas Jesus sabe que existem feridas que precisam ser expostas para serem tratadas.
A tristeza de Pedro fez parte do processo de restauração.
Jesus não estava tentando humilhá-lo. Ele estava restaurando seu coração.
E existe uma diferença enorme entre ser levado de volta ao passado para ser condenado e ser levado de volta ao passado para ser curado.
Jesus não leva Pedro de volta àquela cena para dizer: “Veja o que você fez”.
Ele o leva de volta para mostrar: “Isso não precisa definir o que você será daqui para frente”.
Jesus restaura o chamado
Mas Jesus não para na cura.
A cada resposta de Pedro, Jesus entrega uma responsabilidade:
“Cuide dos meus cordeiros”.
“Pastoreie as minhas ovelhas”.
“Cuide das minhas ovelhas”.
Isso é muito importante porque Jesus não está apenas restaurando o emocional de Pedro. Ele está restaurando o chamado de Pedro.
Pedro havia falhado como discípulo, mas Jesus ainda o queria como discípulo. Pedro havia negado Jesus, mas Jesus ainda confiava a ele uma missão.
Jesus não apenas cura Pedro; Ele o comissiona novamente.
O encontro daquela manhã não termina com Pedro se sentindo melhor. Termina com Pedro recebendo novamente uma responsabilidade.
Ele havia voltado para o barco, mas Jesus estava chamando Pedro de volta para a missão.
E talvez seja exatamente aqui que essa história encontra a nossa.
Existem momentos em que precisamos ser curados, mas existem momentos em que precisamos entender que Deus não quer apenas nos curar de alguma coisa. Ele quer nos curar para alguma coisa.
Jesus não estava simplesmente dizendo a Pedro: “Está tudo bem, esqueça o que aconteceu”.
Jesus estava dizendo, na prática: “Eu ainda tenho algo para você fazer”.
E isso muda tudo.
A pergunta final de Jesus não foi: “Pedro, você acredita que fui eu quem fez a pesca?”. Também não foi: “Você acredita que eu ressuscitei?”. A pergunta foi: “Você me ama?”.
Porque Jesus não estava procurando apenas uma declaração de fé. Ele estava tratando daquilo que sustentaria a missão de Pedro.
Se você me ama, ame também aquilo que eu amo. Cuide daquilo que é meu. Faça parte daquilo que eu estou fazendo.
Jesus introduz Pedro novamente em sua missão.
E talvez essa seja uma das grandes marcas de quem realmente ama Jesus: Quem ama Jesus aprende a amar aquilo que Ele ama.
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