Você Pode Conhecer Jesus e Ainda Estar Longe Dele

Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas apresentam principalmente aquilo que Jesus fez e ensinou. Por isso, encontramos muitas parábolas, milagres e relatos organizados de forma narrativa. O Evangelho de João, porém, segue um caminho diferente. Seu objetivo não é apenas registrar acontecimentos, mas revelar a identidade de Jesus.

Ao longo do livro, João seleciona cuidadosamente episódios, diálogos e sinais para conduzir o leitor a uma conclusão central: Jesus é o Filho de Deus. Mais do que contar uma história em ordem cronológica, ele constrói uma reflexão teológica sobre quem Cristo é e o que significa crer nele.

Um exemplo interessante aparece logo no início do evangelho. Enquanto os Evangelhos Sinóticos colocam a purificação do templo nos últimos dias do ministério de Jesus, João registra esse episódio logo no começo. Em seguida, apresenta a conversa entre Jesus e Nicodemos. Essa sequência parece intencional.

Após expulsar os comerciantes do templo, Jesus permanece em Jerusalém durante a Festa da Páscoa. Muitos passam a acreditar nele por causa dos sinais que realiza. No entanto, João faz uma observação curiosa:

“Estando Jesus em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos creram no seu nome quando viram os sinais que ele fazia. Mas o próprio Jesus não confiava neles, porque conhecia a todos.” (João 2:23-24)

Aparentemente, aquelas pessoas estavam impressionadas com os milagres, mas ainda não haviam experimentado uma transformação verdadeira. Elas admiravam Jesus, mas isso não significava que realmente o conheciam.

É nesse contexto que surge Nicodemos.

João o apresenta como um fariseu e líder religioso entre os judeus. Alguém respeitado, instruído e profundamente conhecedor das Escrituras. Ainda assim, ele procura Jesus durante a noite.

No Evangelho de João, a noite frequentemente simboliza mais do que um horário do dia. Ela representa escuridão espiritual, incerteza e dificuldade para enxergar a verdade. Nicodemos reconhece que Jesus veio da parte de Deus. Reconhece seus sinais e sua autoridade. Mas, apesar de todo o seu conhecimento religioso, ainda não compreende plenamente o Reino de Deus.

Por isso, Jesus conduz a conversa para um ponto inesperado:

“Eu lhe digo a verdade: quem não nascer de novo não verá o Reino de Deus.” (João 3:3)

A resposta de Jesus mostra que a entrada no Reino não acontece por conhecimento intelectual, tradição religiosa ou admiração. É necessária uma transformação profunda, um novo nascimento produzido pelo Espírito.

Quando Jesus fala sobre nascer da água e do Espírito, a imagem aponta para purificação e renovação. A vida com Deus não começa apenas quando alguém aprende novas informações sobre Cristo, mas quando experimenta uma mudança interior que redefine toda a sua existência.

A conversa então alcança um dos momentos mais importantes de todo o evangelho. Jesus faz referência à serpente de bronze levantada por Moisés no deserto e anuncia aquilo que aconteceria na cruz:

“E, como Moisés, no deserto, levantou a serpente de bronze numa estaca, também é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna.” (João 3:14-15)

Logo depois vem uma das declarações mais conhecidas das Escrituras:

“Porque Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)

O que produz fé verdadeira não são apenas os sinais. É a revelação do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo.

Curiosamente, o capítulo não termina com Nicodemos. João introduz outro personagem: João Batista.

Enquanto alguns discutem questões relacionadas à purificação e ao batismo, João Batista responde com uma frase que resume sua postura diante de Cristo:

“Ele deve se tornar cada vez maior, e eu, cada vez menor.” (João 3:30)

Nesse ponto, o evangelho cria um contraste interessante.

Nicodemos era um mestre em Israel. Possuía conhecimento, prestígio e formação religiosa. Viu os sinais de Jesus e reconheceu sua autoridade. Mesmo assim, ainda precisava nascer de novo.

João Batista, por outro lado, não se apresenta como um especialista. Ele se define como amigo do noivo. Sua alegria não está em sua própria importância, mas em apontar para Cristo.

Enquanto Nicodemos chega à noite buscando respostas, João Batista demonstra a segurança de quem já encontrou seu propósito. Enquanto um ainda tenta compreender o Reino, o outro se alegra em ver Jesus ocupar o centro de todas as coisas.

Essa comparação revela uma verdade importante para qualquer leitor do evangelho. É possível conhecer muito sobre Jesus e ainda permanecer distante dele. É possível admirar seus ensinamentos, reconhecer sua influência e até se impressionar com seus feitos sem experimentar a transformação que ele oferece.

O que diferencia um admirador de um amigo de Jesus não é apenas o quanto sabe sobre ele, mas o quanto sua vida foi rendida a ele.

Mais tarde, o próprio Jesus declararia:

“Vocês serão meus amigos se fizerem o que eu ordeno.” (João 15:14)

E o centro desse mandamento é o amor:

“Este é meu mandamento: Amem uns aos outros.” (João 15:17)

O chamado de Cristo nunca foi apenas para acumular conhecimento religioso. Seu convite é para uma nova vida. Uma vida marcada pelo novo nascimento, pela transformação do coração e pela disposição de permitir que ele cresça enquanto nós diminuímos.

A história de Nicodemos nos lembra que admiração não é o mesmo que discipulado. Os sinais podem impressionar, o conhecimento pode informar, mas somente um coração transformado pode experimentar uma amizade verdadeira com Cristo.

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